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Som da Paisagem, faixa a faixa do álbum por Felipe Mello

O cantor Felipe Mello fala sobre as músicas do seu primeiro álbum solo, Som da Paisagem, estreia do projeto Aeroflip. Escute as músicas no site do projeto.

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Som da Paisagem, álbum solo de Felipe Mello

1. DOIS PÓLOS

Elegi essa letra do amigo Daniel “Cuca” Moreira, dentre outras de sua autoria que tinha na minha gaveta. O curioso é que quando mandei a pré-gravação pra ele ouvir, o cara não lembrava que tinha escrito aqueles versos. Foi hilário. Depois de um insight de memória, argumentou que escreveu sim, aquelas palavras… numa fase em que, apesar de dividir o espaço no lar e no trabalho com a esposa, se deu conta que os dois só se falavam mais “calmamente” nos finais de semana. 

Iniciei a melodia e a composição pelo refrão. Na segunda repetição dessa parte, faço uma variação na harmonia que pende pra outro lado, no trecho que indaga “então por que mudar?”. O restante da melodia é simples e direta, seguindo o núcleo da letra. Criei uma levada folk em tom maior e montei o solo da introdução.

Dois pólos poderia ter se chamado “Hemisférios”, “Opostos perfeitos” ou ainda, “Outono e verão.”

2. UM BLUES DEPOIS DE MIM

Juca Moraes havia me enviado 3 ou 4 letras por e-mail na fase de planejamento do disco. Logo que li “um blues” achei a frase “…encontrar a paz após o fim. Tudo segue além de mim” incrível. Traduzia posteridade, esperança, a continuação de um ciclo. Então, no inverno de 2009, abri uma garrafa de vinho, liguei o CD player e em seguida bebi das fontes de Robert Johnson, John Lee Hoocker e Ben Harper, já com o violão em mãos. Compus em menos de uma hora e no outro dia fui gravar a demo no estúdio Luna.

Mais tarde durante o processo definitivo de gravação, o percussionista Cristiano Panigas foi muito feliz ao trazer para o aquário, uma caixinha de madeira com brita dentro (fazendo as vezes da caixa da bateria) e um ralador de cozinha de metal, tocado com vassourinhas pra explorar os agudos. Ale Ravanello costurou brilhantemente a gaitinha de boca na trilha, pra lembrar um pouco a atmosfera do Mississipi.

3. MONTPARNASSE

O nome se refere a um bairro e ao maior arranha-céu de Paris, onde do alto é possível ter-se uma visão privilegiada da capital francesa. A letra faz alusão às sinuosidades da figura feminina. O texto foi colhido de uma coletânea de poemas do meu pai, Silvio Luzardo, chamada “Achados e perdidos”, da década de 1990.

Tem uma harmonia rica, com alguns acordes dissonantes e foi experimentada em ensaios da Doidivanas. Chegamos a gravá-la em uma demo. Para o álbum do Aeroflip, Fabiano Queiroz se encarregou do arranjo de guitarras, Luke Faro gravou a bateria no primeiro take, sem edições, e Marcelo Mello registrou violinos que ficaram ocultos no fonograma original, mas que serão reaproveitados numa versão mais acústica do tema.  

4. QUANDO O CORAÇÃO É UM VIOLÃO DESAFINADO

Uma das muitas parcerias que tenho com o poeta Juarez Machado de Farias. Um texto belíssimo.Lembro que a composição fluiu rapidamente e em poucos minutos estava concluída. Isso foi no quarto de um apartamento que morava na Rua Marechal Deodoro, em Pelotas, no ano de 1994. Lá se vão 19 anos, mas considero esse tema bastante atual.

A levada instrumental latina que ocorre depois de uma pausa mais pro fim da canção – onde se tem um silêncio – foi criada pra essa versão do disco, emoldurada por um solo envolvente de guitarra, de Lucas Esvael.

5. ÍMÃ

Samba-canção que traduz leveza, astral adolescente, musas que inspiram… brasilidade à moda gaúcha. O arranjo original de violão, voz e flauta foi acrescido no registro definitivo apenas pela bateria e contrabaixo.

Atingimos um resultado apaixonante graças às magias de áudio do Protásio Jr. que inverteu timbres, explorou cada captação de som e ofereceu a ela uma sonoridade bem moderna. A composição é uma parceria com o doidivanas Rodrigo dMart, aproveitada para esse voo solo.

6. AOS QUATRO VENTOS    

No encarte do disco, ofereço essa balada de acordes simples aos três componentes da minha primeira banda de rock – a Terceira Via – que formei logo que voltei de Brasília para estudar no Sul. Edison Macuglia na guitarra, Gustavo Bresolin no baixo e Dallas André na bateria e nos vocais eram as figuras que podiam tornar juntamente comigo…o “sonho possível”. Guardo com muito carinho os tantos ensaios, os instrumentos improvisados (meu primeiro pedestal de microfone era uma máquina de cortar grama), os shows na região de Cruz Alta e os “hits” que tocavam em muitas rádios locais.

Outros tempos, é claro, mas que com certeza conduziram o primeiro impulso de produção artística coletiva, para o que viria pela frente. “Aos quatro ventos” foi composta em 1991.

7. CASA DAS CANÇÕES

Fiz um blues bem “slow” pra letra de Rodrigo dMart. Foi a primeira música a ser gravada para “O som da paisagem”. Fabiano Queiroz fez um arranjo cuidadoso e belo para a guitarra, que conduz composição até o elegante solo final. Ale Ravanello retorna com sua harmônica, colorindo frases soltas, intercaladas à voz principal.

8. AREIA NO VENTO

O RS é um estado economicamente agrícola. De uns 15 anos pra cá, sofreu um “boom” e hoje evolui progressivamente com o avanço do agronegócio, se destacando no mundo inteiro. Mas ironicamente, o sudoeste gaúcho, sofre um sério processo de desertificação, quase que totalmente provocado pelas mãos do homem, que foi retirando a cobertura vegetal e as matas ciliares durante décadas. Áreas que outrora foram produtivas, hoje servem de base para areias que vão se dispersando com a ação dos ventos, ocasionando a transformação da paisagem.

Esse é o tema que musiquei para a oitava canção do disco, também compilada na coletânea “Achados e perdidos”, de Silvio Luzardo.

9. O SOM DA PAISAGEM

Segunda parceria do disco com Juca Moraes, a faixa-título do disco inclui na gravação os tambores alucinantes de Luke Faro, o berimbau de Cristiano Panigas no refrão e os hi-hats programados por Protásio Jr. que dá brilho à textura geral. O looping predominante formado por uma harmonia de três acordes é interrompido por alteração no andamento, que após um solo solitário de guitarra de Lucas Esvael, retorna com batuques afros,“transformando em poesia a paisagem do lugar”.   

10. A VERDADE CHORA NA AMÉRICA

Originalmente escrita para o 1º Musicanto Sul-Americano de Nativismo*, em 1983, por Silvio Luzardo, a versão da demo registrada pelo grupo In Natura é completamente às avessas desta versão que encerra o disco. O que fiz foi criar um ciclo de acordes, deixando a voz fluir com o auxílio de um delay-radinho-de-pilha, como se estivesse em oratória. Então, misturei tudo isso aproveitando a linda melodia do refrão e o vocalize final compostos por Hugo Tagliani

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